Hoje quero só falar.....
Quero falar de coisas que me lembro e lembrar-me das vezes que fui feliz e que fiz coisas boas. Ajudar velhinhos a passar a passadeira, cegos a chegar onde pretendem, fiz pessoas sorrir por fazer palhaçadas, inclusive disse-lhes o quanto gostava delas, o que é raro no dias de hoje. Parece que as pessoas abetoam os seus corações até ao pescoço e não deixam sair os afectos, a não ser claro que sejam dias de festa. Ficam assim os afectos e carinhos guardados para os dias em que lhes é permitido sair, aniversário, natal, ano novo e se for o caso dia dos namorados. O que dá uma média de 4 a 5 dias de carinho por ano......é de uma pessoa deprimir.
Hoje quero-me lembrar das vezes que fui feliz, das vezes em que o meu pai me agarrava nos braços e me ajudava a dar cambalhotas, das vezes em que me rodava até ficar tonta e perdida de riso. Das vezes que comiamos gelados e lambusávamos a boca e o nariz, e de sempre mas sempre ele ter de comer o meu gelado por nunca o comer até ao fim...Das vezes em que roxa de tanto tempo na água ele me segurava no colo e me levava para a toalha por saber que eu detestava a areia nos pés, das vezes que gritava em plenos pulmões que o meu pai era o maior nadador de todos porque sabia nadar á cão.
Quero-me lembrar das vezes em que a minha mãe me dava presentes e brincava comigo, quero-me tentar lembrar das vezes que a minha mãe brincava comigo, mas não consigo..... ..... ......
Mas lembro-me dos vestidos de princesa e os ganchinhos de cabelo que ela me comprava e me faziam sentir muito bonita.
Lembro-me de que ela queria que eu crescesse rápidamente, hoje em dia quando penso nisso acredito que ela acreditava que sendo eu um adulto não seria tão frágil e estaria então muito mais protegida do resto do mundo. A minha mãe sempre me quis proteger de tudo e quando comecei a crescer e a tornar-me o adulto que ela sempre quis ela entrou em pânico, e quis segurar o tempo para eu não crescer. Porque ser adulto implica ser autónomo e isso é tudo o que as mães não querem. Perder um filho para um mundo enorme como o nosso deve ser algo arrasador, e sentir que aquela pessoa que cuidamos e acarinhamos, que até aqui tinhamos protegido de tudo está a fugir-nos das mãos e pode cair e magoar-se sem que possamos fazer nada deve ser uma sensação horrivel, talvez por isso ela tenha sido sempre tão dura. Mas acho que se ela fosse diferente eu não gostava tanto dela.
Lembro-me dos cartõezinhos dos dias dos pais e das mães que fazia no colégio, o meu pai guardou-os a minha mãe não. Lembro-me de brincar ás Barbies com as meninas e aos esgotos com a minha irmã e os meus primos. Lembro-me de sujar os All Star de lama e do meu pai ralhar, lembro-me da minha irmã ter rasgado as calças novas a fugir de um cão e a minha mãe ralhar :P.
Lembro-me de encontrar o senhor marreco e ele nos dar pirolitos, lembro-me das vezes em que não encontravamos o senhor marreco e então iamos nós para a porta da sua casa pedir pirolitos, lembro-me que os pirolitos eram bons muito bons.
Lembro-me das vezes que me magoava, umas asério e outras nem tanto mas o drama era sempre enorme, lembro-me que o meu pai sempre foi uma espécie de guardião da minha hipocondria, onde tudo mas tudo, até o mais pequeno arranhão era motivo para alarme, enquanto a minha mãe, bem mais realista me dizia que aquilo não tinha importância nenhuma.
Mas penso que todos nós precisamos de um guardião da nossa hipocondria de vez enquando, ajuda-nos a curar a ferida e a sentir-nos amados e cuidados.
Também me lembro-me de brincar aos tubarões com a minha irmã, ou melhor lembro-me de brincar aos tubarões sozinha porque a minha irmã entrava em pânico com a brincadeira. Lembro-me de lhe agarrar as pernas por debaixo de água e ela começar a chorar, e de eu soltar algo como: "Sua mariquinhas"....coitadinha.
Lembro-me das vezes que o meu pai tinha de se levanar a meio da noite para me fazer leite, pois eu não deixava a minha mãe fazê-lo. Sempre tive um gosto muito apurado e sabia perfeitamente quando era um ou outro a fazer, nenhuma das vezes que me tentaram enganar resultou portanto. Sim eu acreditava mesmo que o leite que o meu pai fazia era muito melhor que o da minha mãe, o leite do meu pai continha amor e dedicação o da minha mãe não era leite apenas.
Lembro-me de muitas outras coisas que agora não me apetece contar.
Lembro-me de muitas pessoas que não mencionei, mas estas são sem dúvida as mais importantes da minha vida.
Só me estava a apetecer falar de coisas.
1 comentário:
falar de coisas é bom...
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